Em Apocalipse 10, mais uma vez, João escreve um interlúdio, tal como fez no capítulo 7. Depois do sexto selo, ele faz uma digressão para mostrar ao leitor uma imagem dos santos no céu.

O sexto selo revelou a cena dos incrédulos enfrentando a ira de Deus e do Cordeiro (6.15–17); o subsequente interlúdio do capítulo 7 apresentou os santos na glória, selados por Deus, os quais são um prelúdio para a abertura do sétimo selo (8.1).

De modo semelhante, o soar da sexta trombeta retrata os incrédulos que se recusam a se arrepender de suas obras ímpias, embora tenham testemunhado o juízo divino numa série de flagelos (8.6–9.21).

Porém, antes que a sétima trombeta soe, João apresenta os santos na terra, os quais são instruídos a apresentar a Palavra de Deus ao mundo. Em resumo, esse interlúdio do capítulo 10 não é um intervalo de descanso, mas um momento de receber e proclamar o evangelho.

O Sete Selos

Na sequência dos setes (selos, trombetas, taças), há um interlúdio depois do sexto selo e da sexta trombeta, mas não depois da sexta taça. Isso significa que, além de pregar o evangelho ao mundo como igreja, não há nada mais que os crentes possam fazer enquanto esperam pela consumação que termina no juízo final.

João apresenta uma série de setes no contexto dos selos, trombetas e taças que mostram um paralelismo progressivo. Esses conjuntos de setes revelam quadros dentro de quadros que não são nem rigorosamente simultâneos nem sucessivos.

É melhor dizer que os conjuntos de setes são realizados tanto simultaneamente quanto sucessivamente. Na medida em que os conjuntos de setes se desenvolvem, o foco na vitória de Cristo e na derrota de Satanás se torna cada vez mais claro. Esses conjuntos, cada um a seu próprio modo, apontam para a consumação.

A Instrução Divina

João ouve uma voz do céu dizendo: “Sele as coisas que os sete estrondos de trovão disseram, e não as escreva” (v. 4). Como tudo mais no Apocalipse, ele expressa a visão na linguagem do Antigo Testamento, tomando palavras da profecia de Daniel.

A Daniel é dito que sele suas visões porque elas pertencem ao futuro (8.26; 12.4,9; contraste com Ap 22.10). Do mesmo modo, as visões de João se tornam realidade quando o tempo de Deus chega. A leitura “um espírito da vida de Deus entrou neles, e eles se levantaram sobre seus pés” (11.11), parece ecoar Ezequiel 37.10: “e o espírito entrou neles, e viveram e se puseram em pé”. A instrução do anjo para que João comesse o pequeno rolo, que tinha gosto de mel, ecoa os salmos e os profetas (Sl 19.10; 119.103; Jr 15.16; Ez 2.8; 3.3–13).

Qual é o significado da expressão pequeno rolo?

Alguns intérpretes afirmam que essa expressão se refere ao rolo que o Cordeiro tomou da mão direita de Deus (Ap 5.1–9). Eles ressaltam que nesse caso o adjetivo pequeno perdeu seu significado, pois, no grego, a palavra rolo já é um diminutivo.

De fato, há exemplos que comprovam que um diminutivo às vezes perde suas características. O contexto desse capítulo mostra que João às vezes usa os termos rolo e pequeno rolo como sinônimos (veja v. 2, 8, 9, 10).

Esses intérpretes concluem que as duas palavras significam a mesma coisa e que não se deve colocar muito peso numa distinção entre o rolo de 5.1–9 e o pequeno rolo de 10.2, 9–10.

Contudo, é intenção de João indicar que os dois livros mencionados nos capítulos 5 e 10 são idênticos?

Observamos que, em relação a essas palavras, João faz algumas distinções. Primeiro, ele usa o termo livro na expressão o livro da vida, o qual contém os nomes do povo de Deus (3.5; 20.15).

Ele parece comunicar a ideia de que esse é um volume que inclui tudo. A seguir, ele aplica a palavra rolo para o volume que está tão repleto que está escrito por dentro e por fora (5.1). Com esse termo, ele parece dizer que o rolo é de comprimento considerável.

Terceiro, quando usa a expressão pequeno rolo, ele chama a atenção para o rolo não selado que está aberto na mão de um anjo (10.2). Em contrapartida, o rolo que o Cordeiro tomou da mão de Deus estava selado com sete selos.

Quarto, se os dois rolos são o mesmo, esperaríamos que João acrescentasse o artigo definido antes da palavra rolo para alertar o leitor quanto às referências anteriores no capítulo 5, o que não acontece em 10.2 (“um pequeno rolo”).

Mas em 10.8, o artigo definido aparece (“o pequeno rolo”), referindo-se a 10.2. De uma perspectiva exegética, os argumentos contra achar que os dois rolos são idênticos são impressionantes.7

Esse pequeno rolo liga os capítulos 10 e 11. Seu conteúdo parece ser o evangelho que a igreja proclama ao mundo (11.3–7). A igreja deve profetizar a palavra de Deus e o testemunho de Jesus, que é exatamente o motivo pelo qual João está na ilha de Patmos (1.9).

Em obediência ao mandado de Jesus de serem testemunhas antes que o fim chegue (Mt 28.19–20), esse evangelho deve ser proclamado a “muitos povos, nações, línguas e reis” (10.11).

A tarefa das duas testemunhas, ou seja, da igreja, é a de proclamar a mensagem de salvação num mundo hostil (11.3). O período durante o qual essa mensagem é pregada “não se relaciona ao tempo da última trombeta, como muitos pensam, mas a todo o período de que trata esse livro”. (1)

Esboço de Apocalipse 10:

Apocalipse 10.1 – 4: Um anjo poderoso

Apocalipse 10.5 – 7: A mensagem do anjo

Apocalipse 10.8 – 11: O pequeno rolo e seu propósito

Apocalipse 10.1 – 4: Um anjo poderoso

1 Então vi outro anjo poderoso, que descia dos céus. Ele estava envolto numa nuvem, e havia um arco-íris acima de sua cabeça. Sua face era como o sol, e suas pernas eram como colunas de fogo.

2 Ele segurava um livrinho, que estava aberto em sua mão. Colocou o pé direito sobre o mar e o pé esquerdo sobre a terra,

3 e deu um alto brado, como o rugido de um leão. Quando ele bradou, os sete trovões falaram.

4 Logo que os sete trovões falaram, eu estava prestes a escrever, mas ouvi uma voz dos céus, que disse: “Sele o que disseram os sete trovões, e não o escreva”.

5 Então o anjo que eu tinha visto em pé sobre o mar e sobre a terra levantou a mão direita para o céu

Apocalipse 10.5 – 7: A mensagem do anjo

6 e jurou por aquele que vive para todo o sempre, que criou os céus e tudo o que neles há, a terra e tudo o que nela há, e o mar e tudo o que nele há, dizendo: Não haverá mais demora!

7 Mas, nos dias em que o sétimo anjo estiver para tocar sua trombeta, vai cumprir-se o mistério de Deus, da forma como ele o anunciou aos seus servos, os profetas.

Apocalipse 10.8 – 11: O pequeno rolo e seu propósito

8 Depois falou comigo mais uma vez a voz que eu tinha ouvido falar dos céus: “Vá, pegue o livro aberto que está na mão do anjo que se encontra em pé sobre o mar e sobre a terra”.

9 Assim me aproximei do anjo e lhe pedi que me desse o livrinho. Ele me disse: “Pegue-o e coma-o! Ele será amargo em seu estômago, mas em sua boca será doce como mel”.

10 Peguei o livrinho da mão do anjo e o comi. Ele me pareceu doce como mel em minha boca; mas, ao comê-lo, senti que o meu estômago ficou amargo.

11 Então me foi dito: “É preciso que você profetize de novo acerca de muitos povos, nações, línguas e reis”.

Referências

  1. Kistemaker, S. (2014). Apocalipse. (J. Hack, M. Hediger, & M. Lane, Trads.) (2a edição, p. 398–401). São Paulo, SP: Editora Cultura Cristã.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here