Apocalipse 11 Estudo: As Duas Testemunhas

Em Apocalipse 11, percebemos que a segunda parte do interlúdio deveria ter sido tratada em Apocalipse 10, do mesmo modo que Apocalipse 7 possui um interlúdio em duas partes. Essa segunda parte é uma continuação do primeiro segmento, com respeito à mensagem do rolo que é doce ao paladar, mas amargo quando digerido.

Nessa parte, as duas testemunhas proclamam seu testemunho, mas vivenciam oposição, guerra e morte. Entretanto, a morte delas não significa derrota, pois serão ressuscitadas de entre os mortos e elevadas ao céu.

Antes de João escrever sobre as duas testemunhas, ele relata sua tarefa de medir o templo de Deus, mas não o átrio exterior. Ele menciona a localização como sendo a cidade santa e a duração como sendo de 42 meses, ou 1.260 dias. Muito já foi escrito sobre o lugar e o tempo que João menciona:

1. O primeiro ponto de vista

É uma interpretação literal do templo de Jerusalém, antes de sua destruição em 70 d.C. Contudo, o nome Jerusalém não aparece nesse capítulo; em vez disso, lemos as palavras “a cidade santa”.

Uma análise dessa expressão no Apocalipse indica um sentido simbólico, não literal. Observamos que, no Apocalipse, a expressão a cidade santa é usada figuradamente para identificar a nova Jerusalém e a morada eterna do crente (21.2, 10; 22.19).

De modo semelhante, a expressão a grande cidade é uma linguagem figurada para Sodoma e o Egito, indicando corrupção moral e escravidão (v. 8). João também usa essa expressão para identificar a Babilônia como uma cidade de imoralidade (14.8; 16.19; 17.18; 18.2, 10, 16, 19, 21). Se o autor explica essas expressões figuradamente por todo o livro de Apocalipse, não devemos tomá-las literalmente.

2. Uma segunda opinião

Vê aqui um templo literal que se tornará realidade imediatamente antes da volta de Cristo e durante esse tempo. No entanto, em lugar algum do Novo Testamento lemos que um templo concreto será reconstruído na cidade de Jerusalém.

Jesus predisse a destruição do templo, mas nunca falou sobre sua reconstrução (Mt 24.2). O rasgar da cortina em frente ao Santo dos Santos foi o sinal de Deus de que a era do templo e seus cultos havia terminado (Mt 27.51).

Paulo usa a palavra templo para descrever a habitação espiritual de Deus, ou seja, a igreja (1Co 3.16; 2Co 6.16; Ef 2.20–22). O autor da Epístola aos Hebreus declara explicitamente que os crentes chegaram “ao monte Sião e à cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial [a saber] … à igreja dos primogênitos arrolados nos céus” (Hb 12.22–23).

Observe que ele escreve sobre a igreja, não sobre o templo. A morte e a ressurreição de Jesus levaram a era do Antigo Testamento ao seu final. Ao fazer o sacrifício supremo, Jesus cumpriu a exigência divina de expiação.

Consequentemente, o templo não precisa mais funcionar como um lugar de sacrifícios de animais para expiar pecados. No Apocalipse, o templo funciona com um propósito simbólico (p. ex., 3.12; 7.15; 21.22).

Mas a nova Jerusalém não tem mais templo “porque o Senhor Deus Todo-Poderoso e o cordeiro são seu templo” (21.22). Assim, com base no Novo Testamento, concluo que não há evidências para apoiar a restauração de um templo concreto em Jerusalém.

3. Uma terceira abordagem

É uma interpretação profética com uma mensagem de esperança e salvação para a comunidade judeu-cristã nos dias de João. A questão é se esse capítulo pelo menos menciona algo sobre um Israel literal, ou seja, um remanescente judeu que deve ser salvo. Essa pergunta recebe uma resposta negativa porque, ao escrever o Apocalipse, João está se dirigindo à igreja universal.

4. Uma última opinião

É uma explicação figurada que vê o templo de Deus como a igreja em adoração. Essa exegese se encaixa no contexto do Apocalipse, o qual de modo repetitivo e consistente apresenta diversas figuras por meio de simbolismo.

De fato, o contexto dos versículos 1 a 13 é simbólico: o templo e a cidade santa, o componente do tempo de 1.260 dias, as duas testemunhas e o terremoto que destrói um décimo da cidade e mata sete mil pessoas.

Robert H. Mounce comenta com sabedoria: “O simbolismo não é uma negação da historicidade, mas um método figurado de comunicar a realidade. A linguagem apocalíptica tem como uma de suas características básicas o uso críptico e simbólico de palavras e expressões”.

Se está correta a datação do Apocalipse como mais próxima do fim do século 1°, então, no seu exílio na ilha de Patmos, João dificilmente iria se referir ao templo de Jerusalém já em ruínas por mais de duas décadas.

A imagem do templo apresentada em termos de santuário, altar, adoradores e átrio exterior se presta mais ao simbolismo do que ao literalismo. Visto que a segunda metade do interlúdio é formulada em termos simbólicos, seria contrário a toda expectativa entender os dois primeiros versículos literalmente.

Uma interpretação que entende o santuário e o altar como simbólicos tem mérito. Isso é verdade especialmente por dois motivos: o momento em que João escreveu o Apocalipse, quando a destruição do templo era uma lembrança distante, e os adoradores dentro do templo de Deus.

A era da antiga aliança chegou ao fim e o tempo da nova aliança chegou. O lugar em que Deus habita não é o templo, mas sim a igreja. Muito embora Paulo tenha ido ao templo de Jerusalém no final da sua terceira viagem missionária, para apaziguar seus oponentes (At 21.23–29), ele ensinou à igreja em Corinto que eles mesmos eram o templo sagrado de Deus; chamou o corpo deles de templo do Espírito Santo (1Co 3.17; 6.19). Deus habita no coração de cada crente, de modo que o corpo de cada um deles é um templo sagrado.

Não obstante, para essa imagem, João usa a conhecida estrutura do templo de Jerusalém: o santuário, o altar, os adoradores e o átrio exterior. O templo destruído pelas forças romanas ainda podia lhe servir de modelo para ensino. (1)

Esboço de Apocalipse 11:

Apocalipse 11.1,2: O Templo

Apocalipse 11.3 – 6: O Poder das Duas Testemunhas

Apocalipse 11.7 – 10: A Morte das Duas Testemunhas

Apocalipse 11.11 – 14: A Ressureição das Duas Testemunhas

Apocalipse 11.15 – 19: A Sétima Trombeta

 

Apocalipse 11.1,2: O Templo

1 Deram-me um caniço semelhante a uma vara de medir, e me disseram: Vá e meça o templo de Deus e o altar, e conte os adoradores que lá estiverem.

2 Exclua, porém, o pátio exterior; não o meça, pois ele foi dado aos gentios. Eles pisarão a cidade santa durante quarenta e dois meses.

Apocalipse 11.3 – 6: O Poder das Duas Testemunhas

3 Darei poder às minhas duas testemunhas, e elas profetizarão durante mil duzentos e sessenta dias, vestidas de pano de saco.

4 Estas são as duas oliveiras e os dois candelabros que permanecem diante do Senhor da terra.

5 Se alguém quiser causar-lhes dano, da boca deles sairá fogo que devorará os seus inimigos. É assim que deve morrer qualquer pessoa que quiser causar-lhes dano.

6 Estes homens têm poder para fechar o céu, de modo que não chova durante o tempo em que estiverem profetizando, e têm poder para transformar a água em sangue e ferir a terra com toda sorte de pragas, quantas vezes desejarem.

Apocalipse 11.7 – 10: A Morte das Duas Testemunhas

7 Quando eles tiverem terminado o seu testemunho, a besta que vem do Abismo os atacará. E irá vencê-los e matá-los.

8 Os seus cadáveres ficarão expostos na rua principal da grande cidade, que figuradamente é chamada Sodoma e Egito, onde também foi crucificado o seu Senhor.

9 Durante três dias e meio, gente de todos os povos, tribos, línguas e nações contemplarão os seus cadáveres e não permitirão que sejam sepultados.

10 Os habitantes da terra se alegrarão por causa deles e festejarão, enviando presentes uns aos outros, pois esses dois profetas haviam atormentado os que habitam na terra.

Apocalipse 11.11 – 14: A Ressurreição das Duas Testemunhas

11 Mas, depois dos três dias e meio, entrou neles um sopro de vida da parte de Deus, e eles ficaram em pé, e um grande terror tomou conta daqueles que os viram.

12 Então eles ouviram uma forte voz dos céus que lhes disse: “Subam para cá”. E eles subiram para os céus numa nuvem, enquanto os seus inimigos olhavam.

13 Naquela mesma hora houve um forte terremoto, e um décimo da cidade ruiu. Sete mil pessoas foram mortas no terremoto; os sobreviventes ficaram aterrorizados e deram glória ao Deus dos céus.

14 O segundo ai passou; o terceiro ai virá em breve.

Apocalipse 11.15 – 19: A Sétima Trombeta

15 O sétimo anjo tocou a sua trombeta, e houve fortes vozes nos céus que diziam: “O reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará para todo o sempre”.

16 Os vinte e quatro anciãos que estavam assentados em seus tronos diante de Deus prostraram-se sobre seus rostos e adoraram a Deus,

17 dizendo: Graças te damos, Senhor Deus todo-poderoso, que és e que eras, porque assumiste o teu grande poder e começaste a reinar.

18 As nações se iraram; e chegou a tua ira. Chegou o tempo de julgares os mortos e de recompensares os teus servos, os profetas, os teus santos e os que temem o teu nome, tanto pequenos como grandes, e de destruir os que destroem a terra.

19 Então foi aberto o santuário de Deus nos céus, e ali foi vista a arca da sua aliança. Houve relâmpagos, vozes, trovões, um terremoto e um grande temporal de granizo.

Referências

  1. Kistemaker, S. (2014). Apocalipse. (J. Hack, M. Hediger, & M. Lane, Trads.) (2a edição, p. 419–422). São Paulo, SP: Editora Cultura Cristã.

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