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Ezequiel 15 Estudo: O que significa ser uma videira inútil?

Diego Nascimento
Escrito por Diego Nascimento

Ezequiel 15 me ensina que a eleição divina não anula a responsabilidade do povo de Deus. Mesmo sendo comparado à videira — símbolo de aliança e bênção —, Israel é confrontado por sua inutilidade e infidelidade. O privilégio da eleição não impede o julgamento. O Senhor é justo, e quando a vinha deixa de produzir, Ele mesmo se encarrega de podá-la e lançá-la ao fogo. Isso me faz refletir: estou frutificando? Ou estou apenas ocupando espaço na vinha?

Qual é o contexto histórico e teológico de Ezequiel 15?

O capítulo 15 faz parte da seção que vai de Ezequiel 12 a 24, na qual o profeta apresenta diversos oráculos sobre o juízo iminente de Jerusalém. O pano de fundo histórico é o exílio babilônico, mais precisamente entre os anos 593 a.C. e 586 a.C., quando o templo ainda estava de pé, mas cercado por idolatria, violência e traição à aliança.

Nesse período, muitos judeus ainda acreditavam que Jerusalém nunca seria destruída por causa da presença do templo. Essa falsa confiança na eleição divina e no status de “povo escolhido” é o alvo do discurso de Ezequiel aqui. Como explica Daniel I. Block (2012), o oráculo da videira responde diretamente à arrogância religiosa daqueles que achavam que a aliança garantia proteção incondicional — mesmo vivendo em desobediência.

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A metáfora usada por Ezequiel não é nova. A imagem de Israel como vinha aparece em Salmo 80 e Isaías 5. No entanto, há um contraste gritante: nessas passagens, a videira é cuidada por Deus, mas produz frutos ruins. Já em Ezequiel 15, nem sequer se menciona a expectativa de fruto — a ênfase é na inutilidade da madeira da videira.

Segundo Walton, Matthews e Chavalas (2018), essa figura também era comum em textos antigos do Oriente Médio, como nos Ensinos de Amenemope e no Mito de Erra e Ishum, que associam a improdutividade de plantas à tolice humana e ao julgamento divino. Assim, Ezequiel se apropria de uma imagem cultural conhecida para comunicar uma mensagem teológica poderosa: Jerusalém é como um ramo inútil, prestes a ser queimado.

Como o texto de Ezequiel 15 se desenvolve?

1. O que significa a pergunta sobre a madeira da videira? (Ezequiel 15.1–3)

O texto começa com a fórmula comum em Ezequiel: “A palavra do Senhor veio a mim” (v. 1). Isso indica que o oráculo é direto, objetivo e carregado de autoridade. Em seguida, Deus levanta uma pergunta retórica: “Em que a madeira da videira é melhor do que o galho de qualquer das árvores da floresta?” (v. 2).

A questão não visa comparar qualidade, mas destino. Block (2012) explica que o verbo hebraico mah-yihyeh significa “o que será?”, indicando preocupação com o fim da madeira da videira. E, de fato, ela não tem utilidade para construção ou artesanato — só serve como combustível. Essa comparação já introduz o juízo: se a madeira da videira não tem serventia nem para fazer um simples suporte (v. 3), sua única utilidade é ser queimada.

2. Por que a videira é inútil mesmo antes de queimar? (Ezequiel 15.4–5)

O versículo 4 reforça a inutilidade da madeira da vinha com um exemplo cotidiano: “É lançada no fogo como combustível”. A linguagem é viva, descritiva. A madeira queima de ambas as pontas, o meio é carbonizado, e no fim… nada sobra.

Ezequiel chama atenção para uma lógica inquestionável: “Se não foi útil para coisa alguma enquanto estava inteira, muito menos o será quando o fogo a queimar” (v. 5). Não se trata de exagero, mas de uma constatação dolorosa. Block observa que a metáfora é construída a partir de uma experiência comum — ver madeira queimando no fogo. Isso torna a mensagem ainda mais forte para os ouvintes, que podiam imaginar Jerusalém como aquela lenha inútil sendo consumida.

3. O que significa Deus lançar Jerusalém no fogo? (Ezequiel 15.6–7)

A transição da metáfora para a interpretação é marcada pelo “Por isso diz o Soberano Senhor” (v. 6). Essa fórmula, conhecida como lākēn em hebraico, funciona como um marcador retórico: agora vem a explicação.

Deus se identifica como aquele que lançou a madeira no fogo — ou seja, Ele próprio está julgando Jerusalém. A cidade, outrora símbolo da presença divina, agora é comparada a um ramo inútil destinado à destruição. O versículo 7 reforça a certeza do juízo: “Voltarei contra eles o meu rosto”. Mesmo os que escaparam do fogo inicial não serão poupados. A segunda metade do versículo soa como sentença final: “O fogo os consumirá”.

O objetivo de tudo isso não é apenas castigo, mas revelação: “vocês saberão que eu sou o Senhor”. Isso ecoa o tema central de Ezequiel — a glória de Deus será conhecida, mesmo por meio do juízo.

4. O que o versículo 8 revela sobre a relação entre Deus e a terra? (Ezequiel 15.8)

O último versículo parece anticlimático à primeira vista, mas tem uma função literária crucial. Ele conecta o oráculo ao contexto maior de Ezequiel 14.12–23. A terra será devastada porque o povo foi infiel. Não é apenas o templo que será destruído, mas a relação entre Deus, o povo e a terra também será rompida.

Block observa que esse versículo sela o destino dos moradores de Jerusalém. A infidelidade à aliança trouxe a desolação. A videira inútil não tem mais lugar no jardim do Senhor.

Como Ezequiel 15 se cumpre no Novo Testamento?

Essa metáfora da videira ganha novo sentido quando Jesus diz: “Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor” (João 15.1). Jesus retoma a imagem de Israel como vinha, mas agora se apresenta como a videira autêntica. Ele é o padrão da obediência e da fidelidade que o povo antigo não alcançou.

A advertência é clara: “Todo ramo que, estando em mim, não der fruto, ele o corta” (João 15.2). Essa fala é um eco direto de Ezequiel 15. A madeira inútil será cortada e lançada ao fogo (João 15.6). O que está em jogo não é apenas identidade religiosa, mas frutos visíveis de uma fé verdadeira.

O apóstolo Paulo também usa a metáfora da oliveira em Romanos 11 para mostrar que os ramos naturais (judeus incrédulos) foram cortados, e os gentios foram enxertados. O critério não é o pedigree espiritual, mas a fé que produz frutos.

O que Ezequiel 15 me ensina para a vida hoje?

Ao ler Ezequiel 15, sou lembrado de que não basta pertencer à “videira” externamente. O povo de Jerusalém achava que sua identidade religiosa os protegia. Mas Deus não se impressiona com rótulos. Ele procura frutos — justiça, santidade, fidelidade.

Esse texto me confronta. Será que estou vivendo apenas da aparência da fé? Será que sou um ramo seco, que ainda está ligado ao tronco, mas não produz mais nada?

Aprendo também que o juízo de Deus é inevitável quando rejeitamos Sua graça. Ele é paciente, mas não tolera para sempre a esterilidade espiritual. Se eu não der fruto, corro o risco de ser cortado, como a madeira inútil da videira.

Por outro lado, esse texto me inspira a buscar uma vida frutífera. Se o Senhor é o agricultor, Ele cuida da vinha com zelo. Posso confiar que Ele me poda para que eu frutifique ainda mais. Mesmo as dores que enfrento podem ser instrumentos para me tornar mais útil no Seu Reino.

Por fim, sou lembrado de que a presença de Deus não garante proteção se não houver fidelidade. Jerusalém caiu apesar do templo. Eu também posso cair se me apoiar em estruturas externas em vez de cultivar um relacionamento vivo com Cristo.

A metáfora da madeira da videira me mostra que não posso ser neutro. Ou frutifico para a glória de Deus, ou serei considerado inútil. E, como Jesus disse, “nisto é glorificado meu Pai: que deis muito fruto” (João 15.8). Essa é minha oração hoje.


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