Em João 12, iniciamos o estudo do “livro da glória”, relatos que incluem a entrega, a morte e a ressurreição do Senhor Jesus Cristo. Mas com esse capítulo, também encerramos a quarta parte do esboço em que dividimos este evangelho que nos mostra que Jesus, o Deus encarnado, foi para Jerusalém se entregar por nós (conf. 10.40–12.50).

Neste capítulo estaremos estudando fatos que aconteceram dias antes de Jesus ser entregue por nós na cruz do Calvário.

Ao considerarmos o primeiro episódio registrado nesse capítulo, notamos diferenças em relação ao relato de dois evangelhos sinóticos (Mt 26.6–13 e Mc 14.3–9), uma vez que Lucas não registra esse episódio nessa ocasião (conf. Lc 7.36–50).

Essas diferenças podem ser pontuadas, como seguem: nos evangelhos sinóticos de Mateus e Marcos esse acontecimento teve ocasião dois dias antes da Páscoa, aqui em João ele o registra a seis dias antes da Páscoa; nos sinóticos esse episódio se deu na casa de Simão, o leproso, aqui em João esse fato aconteceu na casa onde estava Lázaro.

Nos sinóticos, todos os discípulos se queixaram do “desperdício” da unção, aqui em João é somente Judas que se queixou da atitude de Maria; em Mateus e Marcos não se identifica a mulher que ungiu Jesus, aqui em João essa mulher é claramente identificada, é Maria, irmã de Marta e de Lázaro.

Nos sinóticos, o bálsamo foi derramado sobre a cabeça de Jesus, aqui em João, o bálsamo foi derramado sobre os pés de Jesus; em Mateus não temos o cálculo do valor do perfume, aqui em João, que acompanha Marcos, o valor mencionado é de trezentos denários; e nos sinóticos, por não se especificar a queixa de Judas, não se detalha a sua atitude e a sua motivação, aqui em João, Judas é identificado como “tesoureiro” do grupo e ladrão.

Como entender essas e outras diferenças menores?

Seguindo a linha de raciocínio de Carson (2007, p. 426–427), podemos considerar que a unção feita sobre Jesus não se restringiu somente à sua cabeça, ou somente aos seus pés, mas certamente atingiu o seu corpo, numa antecipação dos perfumes que eram colocados quando se preparavam os cadáveres para o sepultamento.

Marcos e Mateus tinham razões temáticas para enfatizar a unção sobre a cabeça de Jesus, pois queriam demonstrá-lo honrado e ungido como rei para os seus leitores (Marcos, para os romanos e Mateus, para os judeus).

E certamente, outra lição que podemos aprender com essas diferentes narrativas refere-se à provável intenção de João ao enfatizar a unção sobre os pés de Jesus, uma vez que já no próximo capítulo é Jesus, que numa atitude maravilhosa de humildade e amor, lava os pés dos discípulos, desafiando-os a procederem assim mutuamente.

Essas diferenças demonstram claramente que o conteúdo está preservado, mas demonstram também que as fontes, muitas delas orais, usadas na composição dos evangelhos, foram diversas e, cada autor, inspirado pelo Espírito Santo, se valeu dos recursos disponíveis para a confecção dos seus relatos testemunhais.

Após essas observações, podemos observar esse capítulo de maneira completa e, ao procedermos assim, verificamos que são sete as divisões marcantes que merecem a nossa atenção.

Esboço de João 12:

João 12.1 – 8: A unção de Jesus em Betânia

João 12.9 – 11: O plano dos judeus para matar Lázaro

João 12.12 – 19: A entrada de Jesus em Jerusalém

João 12.20 – 26: Jesus atende a alguns gregos

João 12.27 – 36: Jesus explica sobre a sua missão

João 12.37 – 43: Jesus e a incredulidade dos judeus

João 12.44 – 50: O resumo do ensino de Jesus

 

João 12.1 – 8: A unção de Jesus em Betânia

1 Seis dias antes da Páscoa Jesus chegou a Betânia, onde vivia Lázaro, a quem ressuscitara dos mortos.

2 Ali prepararam um jantar para Jesus. Marta servia, enquanto Lázaro estava à mesa com ele.

3 Então Maria pegou um frasco de nardo puro, que era um perfume caro, derramou-o sobre os pés de Jesus e os enxugou com os seus cabelos. E a casa encheu-se com a fragrância do perfume.

4 Mas um dos seus discípulos, Judas Iscariotes, que mais tarde iria traí-lo, fez uma objeção:

5 “Por que este perfume não foi vendido, e o dinheiro dado aos pobres? Seriam trezentos denários”.

6 Ele não falou isso por se interessar pelos pobres, mas porque era ladrão; sendo responsável pela bolsa de dinheiro, costumava tirar o que nela era colocado.

7 Respondeu Jesus: Deixe-a em paz; que o guarde para o dia do meu sepultamento.

8 Pois os pobres vocês sempre terão consigo, mas a mim vocês nem sempre terão.

João 12.9 – 11: O plano dos judeus para matar Lázaro

9 Enquanto isso, uma grande multidão de judeus, ao descobrir que Jesus estava ali, veio, não apenas por causa de Jesus, mas também para ver Lázaro, a quem ele ressuscitara dos mortos.

10 Assim, os chefes dos sacerdotes fizeram planos para matar também Lázaro,

11 pois por causa dele muitos estavam se afastando dos judeus e crendo em Jesus.

João 12.12 – 19: A entrada de Jesus em Jerusalém

12 No dia seguinte, a grande multidão que tinha vindo para a festa ouviu falar que Jesus estava chegando a Jerusalém.

13 Pegaram ramos de palmeiras e saíram ao seu encontro, gritando: “Hosana!” “Bendito é o que vem em nome do Senhor!” “Bendito é o Rei de Israel!”

14 Jesus conseguiu um jumentinho e montou nele, como está escrito:

15 “Não tenha medo, ó cidade de Sião; eis que o seu rei vem, montado num jumentinho”.

16 A princípio seus discípulos não entenderam isso. Só depois que Jesus foi glorificado, eles se lembraram de que essas coisas estavam escritas a respeito dele e lhe foram feitas.

17 A multidão que estava com ele, quando mandara Lázaro sair do sepulcro e o ressuscitara dos mortos, continuou a espalhar o fato.

18 Muitas pessoas, por terem ouvido falar que ele realizara tal sinal milagroso, foram ao seu encontro.

19 E assim os fariseus disseram uns aos outros: “Não conseguimos nada. Olhem como o mundo todo vai atrás dele!”

João 12.20 – 26: Jesus atende a alguns gregos

20 Entre os que tinham ido adorar a Deus na festa da Páscoa, estavam alguns gregos.

21 Eles se aproximaram de Filipe, que era de Betsaida da Galiléia, com um pedido: “Senhor, queremos ver Jesus”.

22 Filipe foi dizê-lo a André, e os dois juntos o disseram a Jesus.

23 Jesus respondeu: Chegou a hora de ser glorificado o Filho do homem.

24 Digo-lhes verdadeiramente que, se o grão de trigo não cair na terra e não morrer, continuará ele só. Mas se morrer, dará muito fruto.

25 Aquele que ama a sua vida, a perderá; ao passo que aquele que odeia a sua vida neste mundo, a conservará para a vida eterna.

26 Quem me serve precisa seguir-me; e, onde estou, o meu servo também estará. Aquele que me serve, meu Pai o honrará.

João 12.27 – 36: Jesus explica sobre a sua missão

27 Agora meu coração está perturbado, e o que direi? Pai, salva-me desta hora? Não; eu vim exatamente para isto, para esta hora.

28 Pai, glorifica o teu nome!” Então veio uma voz dos céus: “Eu já o glorifiquei e o glorificarei novamente”.

29 A multidão que ali estava e a ouviu, disse que tinha trovejado; outros disseram que um anjo lhe tinha falado.

30 Jesus disse: Esta voz veio por causa de vocês, e não por minha causa.

31 Chegou a hora de ser julgado este mundo; agora será expulso o príncipe deste mundo.

32 Mas eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim.

33 Ele disse isso para indicar o tipo de morte que haveria de sofrer.

34 A multidão falou: “A Lei nos ensina que o Cristo permanecerá para sempre; como podes dizer: “O Filho do homem precisa ser levantado”? Quem é esse “Filho do homem”?”

35 Disse-lhes então Jesus: Por mais um pouco de tempo a luz estará entre vocês. Andem enquanto vocês têm a luz, para que as trevas não os surpreendam, pois aquele que anda nas trevas não sabe para onde está indo.

36 Creiam na luz enquanto vocês a têm, para que se tornem filhos da luz. Terminando de falar, Jesus saiu e ocultou-se deles.

João 12.37 – 43: Jesus e a incredulidade dos judeus

37 Mesmo depois que Jesus fez todos aqueles sinais milagrosos, não creram nele.

38 Isso aconteceu para se cumprir a palavra do profeta Isaías, que disse: “Senhor, quem creu em nossa mensagem, e a quem foi revelado o braço do Senhor?”

39 Por esta razão eles não podiam crer, porque, como disse Isaías noutro lugar:

40 “Cegou os seus olhos e endureceu-lhes o coração, para que não vejam com os olhos nem entendam com o coração, nem se convertam, e eu os cure”.

41 disse isso porque viu a glória de Jesus e falou sobre ele.

42 Ainda assim, muitos líderes dos judeus creram nele. Mas, por causa dos fariseus, não confessavam a sua fé, com medo de serem expulsos da sinagoga;

43 pois preferiam a aprovação dos homens do que a aprovação de Deus.

João 12.44 – 50: O resumo do ensino de Jesus

44 Então Jesus disse em alta voz: Quem crê em mim, não crê apenas em mim, mas naquele que me enviou.

45 Quem me vê, vê aquele que me enviou.

46 Eu vim ao mundo como luz, para que todo aquele que crê em mim não permaneça nas trevas.

47 Se alguém ouve as minhas palavras, e não lhes obedece, eu não o julgo. Pois não vim para julgar o mundo, mas para salvá-lo.

48 Há um juiz para quem me rejeita e não aceita as minhas palavras; a própria palavra que proferi o condenará no último dia.

49 Pois não falei por mim mesmo, mas o Pai que me enviou me ordenou o que dizer e o que falar.

50 Sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu digo é exatamente o que o Pai me mandou dizer.

 

Referências

  1. Neves, I., & McGee, J. V. (2012). Comentário Bíblico de João. (I. Mazzacorati, Org.) (Segunda edição, p. 211–212). São Paulo, SP: Rádio Trans Mundial.

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