O texto de João 15 merece nossa atenção, pois além de registrar um dos últimos ensinamentos de Jesus, pronunciados naquela quinta-feira horas antes da sua entrega por todos nós, contém um simbolismo muito interessante.

Apresenta o próprio Senhor Jesus como o iniciador de um novo povo pretendido por Deus, por não ter Israel cumprido a sua função de proclamador das boas-novas de salvação para todo o mundo.

O Antigo Testamento chamava, simbolicamente, o povo de Israel de “videira”. Em diversas referências, esse símbolo poderia ser visto e por isso era bem conhecido por todos, pelas autoridades e pelo próprio povo (conf. Sl 80.8–16; Is 5.1–7; Jr 2.21; Ez 15.1–8; 17.5–10; 19.10–14; Os 10.1).

A nação de Israel era a “vide” plantada por Deus para a bênção das nações. Era a maneira pela qual Deus pretendia manifestar a sua glória e chamar de volta, em arrependimento, todas as pessoas de todas as nações, para um relacionamento vivo com ele (Gn 12.1–3; Êx 19.1–6).

Já no Antigo Testamento, Deus tinha reclamado e chamado Israel de volta para exercer dignamente o seu papel, mas infelizmente não obteve êxito. Algumas passagens nos mostram esse descontentamento divino para com Israel.

Nos Salmos

No livro dos Salmos, Asafe, o poeta, em um momento de calamidade do povo, clama a Deus por sua misericórdia, pois Deus teve que puni-los: Trouxeste uma videira do Egito, expulsaste as nações e a plantaste. Dispuseste-lhe o terreno, ela deitou profundas raízes e encheu a terra…Ó Deus dos Exércitos, volta-te, nós te rogamos, olha do céu, e vê, e visita esta vinha (conf. Sl 80.8–9,14).

Claramente temos uma referência a Israel depois que foi tirado da escravidão do Egito para a Palestina, para a terra prometida. Israel se espalhou e se estabeleceu, e prometia muito de início. Chegou a dar alguns frutos, mas não foram frutos duradouros, pois logo apareceram os maus frutos que surgiram por causa do descuido com a vida espiritual.

Esses frutos podem ser comparados a um enxerto, uma mistura com frutos de outras qualidades e ao descuido com o terreno. As plantas daninhas, ou perigosas, não sendo retiradas, prejudicam o terreno e faz com que a videira produza um fruto amargo, um fruto de má qualidade.

A semente plantada é de boa qualidade, é autêntica, mas o descuido, a mistura com outros alvos de adoração, estragou a qualidade do fruto da videira israelita. Como mencionamos, diversos profetas, como Isaías, Jeremias, Ezequiel e Oseias, foram usados pelo Senhor para expressar a sua avaliação e condenação ao desempenho de Israel durante sua história.

Israel e a Videira

Portanto, diante do fracasso de Israel ser essa vide frutífera, benéfica para todos os povos, Jesus se apresentou, então, como sendo a videira verdadeira, em contraste com a videira brava, com Israel, a videira que produziu maus frutos.

    O que Jesus fez aqui foi uma virada no simbolismo sobre a vinha, das Escrituras. Ele agora é a videira verdadeira. O que a nação fracassou em ser, ele é. Jeremias 2.20–37 enuncia tal advertência sobre julgar a videira nacional. Esse texto é muito semelhante em sentido a outro texto de “substituição”, com outra imagem que Jesus usa como uma metáfora desenvolvida de Ezequiel 34 e a imagem do pastor (Jo 10). Em ambos os casos, Jesus se torna o que a nação deveria ter sido (BOCK, 2006, p. 479)

A vide é composta de vários ramos. Conforme a parábola, os ramos podem ser bons ou ruins. Há muitos cristãos decepcionando o agricultor, aquele que planta a videira e que cuida dela. Os frutos, o testemunho, as obras dos ramos que não estão íntima e continuamente ligados à videira, não agradam a Deus. Infelizmente, existem ramos, se é que podemos chamá-los assim, que produzem maus frutos.

Esses textos nos lembram que muitas vezes decepcionamos a Deus, pois diante das suas bênçãos continuamos produzindo maus frutos, como, por exemplo, a falta da obediência à sua palavra; a negligência em buscar em primeiro lugar o seu reino; a indiferença ao estado de perdição daqueles que vivem sem esperança e sem Deus no mundo e que diariamente estão conosco.

Será que também não somos ramos bravos, que podem ser cortados? Essa resposta deve ser dada diante de Deus.

A partir desses comentários gerais e introdutórios, vamos procurar entender melhor as palavras de Jesus. Vamos entender qual o significado básico das suas palavras quando ele apresentou-se aos seus discípulos como a verdadeira videira que poderia alcançar os objetivos iniciais pretendidos por Deus.

Vamos entender porque Jesus se apresentou ao povo e as autoridades de Israel, que no seu tempo eram ainda uma videira falha, má, infrutífera, como aquele que poderia tirá-los do caminho errado por onde andavam.

Vamos entender que ele estava propondo em si mesmo um recomeço. Esse recomeço de trajetória do verdadeiro povo de Deus teria início dentro em breve, logo após Jesus se dar sacrificialmente em nosso favor e ressuscitar constituindo uma nova criação (conf. 2Co 5.17), uma nova família (conf. Ef 2.19), uma nova raça eleita, uma nação santa, para proclamar as virtudes de Deus (conf. 1Pe 2.9). (1)

Esboço de João 15:

João 15.1 – 17: Os relacionamentos frutíferos

João 15.18 – 27: As questões que os discípulos devem responder

 

João 15.1 – 17: Os relacionamentos frutíferos

1 Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor.

2 Todo ramo que, estando em mim, não dá fruto, ele corta; e todo que dá fruto ele poda, para que dê mais fruto ainda.

3 Vocês já estão limpos, pela palavra que lhes tenho falado.

4 Permaneçam em mim, e eu permanecerei em vocês. Nenhum ramo pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira. Vocês também não podem dar fruto, se não permanecerem em mim.

5 Eu sou a videira; vocês são os ramos. Se alguém permanecer em mim e eu nele, esse dará muito fruto; pois sem mim vocês não podem fazer coisa alguma.

6 Se alguém não permanecer em mim, será como o ramo que é jogado fora e seca. Tais ramos são apanhados, lançados ao fogo e queimados.

7 Se vocês permanecerem em mim, e as minhas palavras permanecerem em vocês, pedirão o que quiserem, e lhes será concedido.

8 Meu Pai é glorificado pelo fato de vocês darem muito fruto; e assim serão meus discípulos.

9 Como o Pai me amou, assim eu os amei; permaneçam no meu amor.

10 Se vocês obedecerem aos meus mandamentos, permanecerão no meu amor, assim como tenho obedecido aos mandamentos de meu Pai e em seu amor permaneço.

11 Tenho lhes dito estas palavras para que a minha alegria esteja em vocês e a alegria de vocês seja completa.

12 O meu mandamento é este: Amem-se uns aos outros como eu os amei.

13 Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos.

14 Vocês serão meus amigos, se fizerem o que eu lhes ordeno.

15 Já não os chamo servos, porque o servo não sabe o que o seu senhor faz. Em vez disso, eu os tenho chamado amigos, porque tudo o que ouvi de meu Pai eu lhes tornei conhecido.

16 Vocês não me escolheram, mas eu os escolhi para irem e darem fruto, fruto que permaneça, a fim de que o Pai lhes conceda o que pedirem em meu nome.

17 Este é o meu mandamento: Amem-se uns aos outros.

18 Se o mundo os odeia, tenham em mente que antes me odiou.

João 15.18 – 27: As questões que os discípulos devem responder

19 Se vocês pertencessem ao mundo, ele os amaria como se fossem dele. Todavia, vocês não são do mundo, mas eu os escolhi, tirando-os do mundo; por isso o mundo os odeia.

20 Lembrem-se das palavras que eu lhes disse: Nenhum escravo é maior do que o seu senhor. Se me perseguiram, também perseguirão vocês. Se obedeceram à minha palavra, também obedecerão à de vocês.

21 Tratarão assim vocês por causa do meu nome, pois não conhecem aquele que me enviou.

22 Se eu não tivesse vindo e lhes falado, não seriam culpados de pecado. Agora, contudo, eles não têm desculpa para o seu pecado.

23 Aquele que me odeia, também odeia o meu Pai.

24 Se eu não tivesse realizado no meio deles obras que ninguém mais fez, eles não seriam culpados de pecado. Mas agora eles as viram e odiaram a mim e a meu Pai.

25 Mas isto aconteceu para se cumprir o que está escrito na Lei deles: “Odiaram-me sem razão”.

26 Quando vier o Conselheiro, que eu enviarei a vocês da parte do Pai, o Espírito da verdade que provém do Pai, ele testemunhará a meu respeito.

27 E vocês também testemunharão, pois estão comigo desde o princípio.

Referências

  1. Neves, I., & McGee, J. V. (2012). Comentário Bíblico de João. (I. Mazzacorati, Org.) (Segunda edição, p. 265–266). São Paulo, SP: Rádio Trans Mundial.

4 COMENTÁRIOS

  1. amado irmão em cristo tenho recebido com muito carinho os comentários sobre o mestre. gostaria de receber um estudo detalhado sobre arrebatamento. graça e paz.

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