Juízes 9 mostra que sementes plantadas por uma geração colhem frutos amargos na seguinte, e que o pecado tem memória mesmo quando os homens se esquecem. Ao ler este capítulo, eu percebo um princípio inegociável da justiça divina. O sangue derramado clama. As alianças traidoras cobram preço. E Deus, mesmo aparentemente silencioso, age através de espíritos, mulheres anônimas e pedras de moinho.
Qual é o contexto histórico e teológico de Juízes 9?
Juízes 9 é uma narrativa que destoa do padrão do livro. Não há ciclo de pecado e libertação. Não há juiz levantado por Deus. Não há fórmula introdutória nem conclusiva esperada. O capítulo aparece como um intervalo sombrio entre os juízes legítimos.
Chisholm (2017) destaca que esse capítulo é, na verdade, continuação direta de Juízes 8. As sementes plantadas por Gideão estavam brotando:
- A concubina em Siquém deu à luz Abimeleque
- O nome significava “meu pai é rei”
- A ambição real de Gideão se materializou no filho
- Setenta meios-irmãos se tornaram obstáculo
O cenário geográfico é importante. Walton, Matthews e Chavalas (2018) localizam Siquém em Tell Balatah, a leste da atual Nablus, cinquenta e seis quilômetros ao norte de Jerusalém. A cidade era estrategicamente importante por estar na entrada leste da passagem entre os montes Gerizim e Ebal, sendo também um centro comercial significativo.
A cidade tinha história sagrada profunda:
- Local onde os ossos de José foram sepultados (Js 24.32)
- Cenário da renovação da aliança liderada por Josué
- Local onde Jacó enterrou os ídolos da família (Gn 35.4)
- Cidade tradicionalmente associada à lealdade ao Senhor
Chisholm (2017) destaca a ironia trágica. A cidade que simbolizava aliança com Yahweh agora se tornava cenário de coroação de um tirano apoiado pelo templo de Baal-Berite.
A composição étnica de Siquém é complexa. Walton, Matthews e Chavalas (2018) explicam que a cidade era populacionalmente mista, com israelitas e cananeus descendentes de Hamor. Abimeleque tinha laços de sangue com os heveus por parte da mãe, o que explica seu apelo às raízes maternas para conquistar apoio local.
Teologicamente, o capítulo apresenta um Deus que age providencialmente, não diretamente. Não há intervenção miraculosa explícita. Mas há justiça poética cumprindo-se em cada movimento da narrativa.
Como o texto de Juízes 9 se desenvolve?
Como Abimeleque se tornou rei? (Juízes 9.1-6)
A história começa com Abimeleque indo a Siquém procurar os parentes da mãe. Ele lhes apresenta uma proposta cruel: “Perguntem a todos os cidadãos de Siquém: ‘O que é melhor para vocês: ter os setenta filhos de Jerubaal governando, ou ter apenas um homem? Lembrem-se de que sou sangue do seu sangue'” (Jz 9.2).
Chisholm (2017) destaca o absurdo lógico do argumento. Abimeleque apela aos laços de sangue para matar seus irmãos de sangue. A linguagem da família é usada para destruir família.
Walton, Matthews e Chavalas (2018) explicam que a primogenitura no antigo Oriente Próximo nem sempre garantia herança ou sucessão. Em algumas culturas, irmãos tinham prioridade sobre filhos. Em outras, o rei designava sucessor. A ausência de regra fixa permitia esse tipo de manipulação política.
Os líderes de Siquém aceitam. Pagam setenta peças de prata do tesouro de Baal-Berite. Walton, Matthews e Chavalas (2018) observam o significado simbólico desse valor:
- Cinquenta peças resgatavam um homem livre (Lv 27.3)
- Vinte peças compravam um escravo
- Setenta peças, uma para cada filho, mostrava o desprezo pela vida humana
Com esse dinheiro, Abimeleque contrata mercenários. Walton, Matthews e Chavalas (2018) explicam que isso era prática comum quando soldados regulares se recusavam a executar tarefas moralmente repulsivas. Os mercenários geralmente buscavam despojos, mas, neste caso, foram pagos antecipadamente porque não haveria ganho material.
Em Ofra, Abimeleque executa setenta meios-irmãos “sobre uma rocha”. Walton, Matthews e Chavalas (2018) sugerem que essa expressão pode indicar execução ritual. Grandes pedras às vezes serviam como altares improvisados. Era assassinato com aparência de sacrifício.
Apenas Jotão, o mais novo, escapa.
A coroação acontece “junto ao carvalho da coluna em Siquém” (Jz 9.6). Chisholm (2017) destaca a ironia geográfica:
- Foi nesse mesmo lugar que Josué ergueu pedra de aliança (Js 24.26)
- Foi nesse local que Jacó enterrou ídolos (Gn 35.4)
- Agora se torna cenário de coroação pagã
A cidade da aliança se tornou cidade da apostasia.
O que significa a parábola de Jotão? (Juízes 9.7-21)
Jotão sobe ao monte Gerizim e proclama uma fábula aos siquemitas. Walton, Matthews e Chavalas (2018) explicam que a acústica natural permitia que alguém posicionado no Gerizim fosse ouvido em Siquém. Há até uma saliência rochosa na parte mais baixa do monte tradicionalmente identificada como o local da proclamação.
A escolha do monte é teologicamente carregada. Chisholm (2017) destaca que foi exatamente no monte Gerizim que metade das tribos recitou as bênçãos pactuais após a invasão de Canaã (Js 8.33; Dt 11.29). A montanha das bênçãos agora se tornava monte das maldições.
A parábola apresenta árvores procurando rei:
- A oliveira recusa, pois produz azeite valioso
- A figueira recusa, pois produz frutos doces
- A videira recusa, pois produz vinho que alegra
- O espinheiro aceita
Walton, Matthews e Chavalas (2018) explicam o simbolismo botânico. Oliveira, figueira e videira eram as três espécies mais produtivas da Palestina. Representavam:
- Prosperidade econômica
- Estabilidade comercial
- Identidade cultural
- Sucesso administrativo
O espinheiro, provavelmente o buxo espinhoso, era o oposto. Suas folhas minúsculas não ofereciam sombra real. Era inflamável. No clima seco da Palestina, arbustos como esse pegavam fogo facilmente, espalhando incêndio para árvores maiores.
Chisholm (2017) destaca cada elemento crítico da fábula:
- A arrogância de Abimeleque
- Sua falta de qualificações
- Sua incapacidade de oferecer proteção real
- Sua sede de poder
- Seu potencial destrutivo
- A estupidez dos siquemitas que confiam nele
Após a parábola, Jotão pronuncia a maldição direta. Se os siquemitas agiram com lealdade e integridade ao escolher Abimeleque, que tenham alegria com ele. Se agiram traiçoeiramente, “saia fogo de Abimeleque e consuma vocês, cidadãos de Siquém e Bete-Milo, e saia fogo de vocês, cidadãos de Siquém e Bete-Milo, e consuma Abimeleque” (Jz 9.20).
Jotão foge para Beer. Walton, Matthews e Chavalas (2018) sugerem identificação com el-Bireh, ao norte de Siquém, perto de Ofra.
A maldição estava lançada. Faltava o cumprimento.
Como Deus interveio contra Abimeleque? (Juízes 9.22-25)
Abimeleque governa Israel por três anos. Mas o texto introduz uma frase teologicamente decisiva: “Deus enviou um espírito maligno entre Abimeleque e os cidadãos de Siquém, e estes agiram traiçoeiramente contra Abimeleque” (Jz 9.23).
Chisholm (2017) explica que a expressão “espírito maligno” não significa necessariamente espírito demoníaco. O termo hebraico ra’ah pode referir-se a:
- Mal moral
- Calamidade ou desastre
- Dano sem juízo de valor moral
No contexto, o espírito é instrumento da justiça divina. Deus está vingando o sangue dos setenta filhos de Jerubaal.
Há também uma escolha intencional de nome divino. O capítulo 9 usa Elohim (Deus), não Yahweh (Senhor). Chisholm (2017) destaca que Yahweh dificilmente seria apropriado, pois Israel havia rejeitado seu Deus pactual e a lealdade característica da aliança havia desaparecido. Elohim, como juiz cósmico, é o nome adequado.
A revolta começa pequena. Os siquemitas postam emboscadas nas estradas, assaltando viajantes. Walton, Matthews e Chavalas (2018) explicam a estratégia. Como Siquém era cidade comercial estratégica, atacar mercadores nas rotas:
- Reduzia a renda de Abimeleque
- Tornava a cidade pouco atraente para o comércio
- Enfraquecia o tirano economicamente
Era guerra comercial antes da guerra militar.
Quem foi Gaal e por que sua revolta fracassou? (Juízes 9.26-41)
Gaal, filho de Ebede, chega a Siquém com seus irmãos. Chisholm (2017) destaca que o nome Gaal soa como o verbo hebraico ga’al, que significa “desprezar” ou “odiar”. Era figura tão repugnante quanto Abimeleque.
Walton, Matthews e Chavalas (2018) caracterizam Gaal e sua tropa como habiru ou apiru, grupos sem terra que viviam como mercenários ou bandidos errantes. As Cartas de Amarna mencionam grupos similares no período.
Durante uma festa religiosa cananeia de colheita, no templo de Baal, Gaal incita a multidão contra Abimeleque: “Quem é Abimeleque, e quem é Siquém para que tenhamos de submeter-nos a ele? Não é ele filho de Jerubaal, e não é Zebul o seu representante? Sirvam aos homens de Hamor, o pai de Siquém. Por que servir a Abimeleque?” (Jz 9.28).
O argumento de Gaal apela exatamente ao oposto do argumento de Abimeleque. Walton, Matthews e Chavalas (2018) explicam o jogo étnico:
- Abimeleque havia se aproveitado de sua origem mista (cananeia pela mãe)
- Gaal agora explora essa mesma origem mista contra ele
- A linhagem que serviu de argumento agora é usada como acusação
Zebul, governador de Abimeleque, ouve o discurso e se enfurece. Envia mensageiros secretos a Abimeleque com plano de ataque surpresa.
Quando Gaal sai pela manhã para o portão da cidade, vê tropas descendo das montanhas. Walton, Matthews e Chavalas (2018) descrevem o cenário visual. Estavam de pé no portão leste, olhando para o oriente. O sol nascente faria com que as encostas oeste do monte ao norte e norte do monte ao sul ficassem na sombra. Vestígios de fortaleza desse período foram encontrados no monte el-Urmeh, provavelmente o quartel-general de Abimeleque (Arumá, Jz 9.41).
Zebul desafia Gaal: “Onde está agora o seu palavrório, você que disse: ‘Quem é Abimeleque para que nos sujeitemos a ele?’ Não são estes os homens que você ridicularizou? Saia agora e lute com eles!” (Jz 9.38).
Gaal sai. É derrotado. Foge. Zebul o expulsa da cidade.
Como Siquém foi destruída? (Juízes 9.42-49)
A vingança de Abimeleque não termina com Gaal. No dia seguinte, o povo sai aos campos. Abimeleque divide suas tropas em três companhias e ataca:
- Uma unidade bloqueia o portão da cidade
- Duas unidades atacam o povo no campo
- Os siquemitas são massacrados
Walton, Matthews e Chavalas (2018) destacam um detalhe estratégico. Provavelmente as tropas vinham da encosta do monte Gerizim, ao sul da cidade, para atacar pela retaguarda.
Abimeleque entra em Siquém, mata todos os habitantes, destrói a cidade e “espalhou sal sobre ela” (Jz 9.45).
Walton, Matthews e Chavalas (2018) discutem o significado dessa prática. Há paralelos antigos:
- Documentos hititas mencionam espalhar agrião sobre cidades destruídas
- Salmaneser I, no século 13, espalhou sal sobre cidade conquistada
- O Tratado Aramaico de Sefire menciona ambas as substâncias em maldição
As interpretações variam:
- Tornar o solo infértil
- Ritual de purificação ou consagração à divindade
- Símbolo contra rebeldia (sal impede ação do fermento)
- Maldição de infertilidade
Chisholm (2017) interpreta o ato como simbólico, em conjunto com maldição de infertilidade.
Os líderes restantes se refugiam na fortaleza do templo de El-Berite. Walton, Matthews e Chavalas (2018) descrevem o edifício. Vestígios desse período foram encontrados na acrópole de Siquém. O templo media trinta e três metros de largura por vinte e oito de comprimento, com paredes de cinco metros e meio de espessura. Era praticamente uma fortaleza.
Abimeleque sobe ao monte Zalmom, corta galhos com seus homens, empilha contra o templo e o incendeia. Cerca de mil pessoas morrem.
A primeira parte da maldição de Jotão se cumpre literalmente.
Chisholm (2017) discute a relação entre Baal-Berite e El-Berite. Algumas possibilidades:
- Eram duas deidades distintas com templos separados
- Eram títulos diferentes para a mesma divindade
- Refletem sincretismo religioso entre israelitas e cananeus
Walton, Matthews e Chavalas (2018) localizam ambos no mesmo templo da acrópole, sugerindo que a questão permanece insolúvel com base nas evidências disponíveis.
Como Abimeleque morreu? (Juízes 9.50-57)
Abimeleque ataca Tebez, provavelmente aliada de Siquém. Walton, Matthews e Chavalas (2018) localizam Tebez na atual Tubas, cerca de quatorze quilômetros a nordeste de Siquém.
A cidade tem uma torre fortificada no centro. O povo se refugia ali. Abimeleque tenta repetir a estratégia de Siquém, aproximando-se para atear fogo.
E então acontece a cena que define o capítulo. “Uma mulher atirou uma pedra de moinho na cabeça dele e quebrou-lhe o crânio” (Jz 9.53).
Walton, Matthews e Chavalas (2018) explicam o contexto da arma improvisada. O moinho usava duas pedras de basalto. A pedra inferior pesava cerca de quarenta e cinco quilos. A superior, cerca de dois quilos, se adaptava à mão do trabalhador. Foi essa pedra superior que a mulher arremessou.
Chisholm (2017) destaca a ironia poética:
- Abimeleque matou setenta irmãos sobre uma pedra
- Abimeleque morre por uma única pedra
- Ele queria ser rei sobre Israel
- É derrotado por mulher anônima
Mortalmente ferido, Abimeleque chama o escudeiro: “Tire sua espada e mate-me, para que não digam que uma mulher me matou” (Jz 9.54).
A vaidade até o fim.
Chisholm (2017) compara essa cena à morte de Sísera em Juízes 4. Em ambos os casos:
- Uma mulher liberta a terra
- Um golpe na cabeça com arma não convencional
- A vergonha do guerreiro morto por mulher
A diferença é teológica. Sísera era opressor estrangeiro. Abimeleque era opressor israelita. A degradação da liderança em Israel produziu inimigos internos piores que os externos.
O texto conclui com afirmação direta: “Foi assim que Deus retribuiu a Abimeleque o crime que praticara contra seu pai, ao matar seus setenta irmãos. Deus fez também os homens de Siquém pagarem por toda a sua maldade. A maldição de Jotão, filho de Jerubaal, caiu sobre eles” (Jz 9.56-57).
A maldição se cumpriu completamente. Em Siquém, fogo de Abimeleque consumiu os cidadãos. Em Tebez, uma esh (fogo) chegou na forma de uma ishshah (mulher), conforme observa Chisholm (2017) destacando o jogo de sons hebraicos.
Deus age, mesmo quando parece silencioso.
Como Juízes 9 aponta para Cristo e o evangelho?
Juízes 9 antecipa o evangelho por meio de contrastes profundos.
Primeiro, há o rei falso e o Rei verdadeiro. Abimeleque tomou trono pela força e pelo sangue dos irmãos. Em Filipenses 2, Cristo é apresentado como aquele que renunciou ao trono celestial para morrer pelos seus irmãos. Os dois reinos não poderiam ser mais opostos. Um sobe pisando em cadáveres. O outro desce até a cruz para ressuscitar uma família.
Segundo, há a fábula do espinheiro e a verdade da videira. Em João 15, Cristo declara: “Eu sou a videira verdadeira”. A videira da fábula de Jotão recusou ser rei porque era frutífera. Cristo é a videira que é rei, oferecendo frutos abundantes a quem nele permanece. Onde a fábula apresenta um dilema (frutificar ou reinar), o evangelho oferece síntese. Cristo frutifica reinando e reina frutificando.
Terceiro, há o sangue dos irmãos clamando. Os setenta filhos de Gideão clamaram da terra, e Deus respondeu com justiça poética. Em Hebreus 12.24, o autor afirma que o sangue de Cristo fala melhor que o sangue de Abel. O sangue dos setenta exigia vingança. O sangue de Cristo oferece perdão. Mas em ambos os casos, sangue derramado clama, e Deus escuta.
Quarto, há o espírito maligno e o Espírito Santo. Deus enviou um espírito de discórdia entre Abimeleque e Siquém para executar justiça. No Novo Testamento, Deus envia o Espírito Santo para criar comunhão e produzir santidade. O contraste mostra que Deus tem instrumentos diversos para propósitos diversos. Justiça e graça brotam da mesma soberania.
Por último, há a mulher anônima e a vitória de Cristo. Uma mulher sem nome derrotou Abimeleque. Em Lucas 1, uma jovem de Nazaré participa do plano de derrotar todos os tiranos espirituais. Maria canta no Magnificat que Deus derruba poderosos de seus tronos e exalta humildes. A lógica do reino é constante. Deus usa o pequeno, o anônimo, o desprezado, para confundir o forte.
O que Juízes 9 me ensina para a vida hoje?
Ao ler Juízes 9, eu aprendo primeiro que sementes plantadas hoje produzem colheitas amanhã.
Gideão acumulou esposas. Teve concubina. Deu nome real ao filho. Talvez achasse que eram detalhes inofensivos.
Mas Abimeleque cresceu acreditando no nome.
Isso me confronta. As pequenas decisões que tomo agora podem produzir consequências que meus filhos colherão. O legado não é apenas o que eu deixo escrito. É o que eu vivo diante deles.
Outra lição vem do uso religioso do dinheiro para fins ímpios. O templo de Baal-Berite financiou um massacre. Setenta peças de prata pagaram pelas vidas de setenta inocentes.
Religião sem ética não é religião. É instrumento.
Quantas vezes eu uso linguagem espiritual para justificar decisões egoístas? Quantas vezes invoco Deus para legitimar o que ele detesta? O capítulo me lembra de que não basta a linguagem religiosa. Deus julga o uso real do que é declarado sagrado.
Aprendo também sobre a eloquência sem caráter. Abimeleque foi articulado. Apelou a laços de sangue. Construiu narrativa convincente. Convenceu uma cidade inteira.
A retórica pode ser arma de destruição em mãos erradas.
Eu vivo em mundo cheio de Abimeleques verbais. Pessoas que falam bem mas planejam mal. E posso ser eu mesmo, em momentos de fraqueza, alguém que constrói argumentos para justificar o injustificável. A coerência entre palavra e caráter é teste constante.
A figura de Jotão me toca. Ele não tinha exército. Não tinha aliados. Não tinha plataforma. Subiu sozinho ao monte Gerizim e proclamou a verdade.
Há momentos em que minha única arma é a verdade dita em voz alta.
Não preciso vencer no momento. Não preciso ser ouvido por todos. Preciso ser fiel ao testemunho que Deus me dá. A maldição de Jotão se cumpriu. Não imediatamente. Não pelas mãos dele. Mas Deus levou a sério o que foi proclamado em fé.
A justiça de Deus também me confronta. Abimeleque governou três anos. Pareciam três anos de impunidade.
Mas Deus estava esperando o momento certo.
Eu sou impaciente diante da injustiça. Quero resolução imediata. Vingança rápida. Mas Deus opera em escalas que não controlo. Ele esperou três anos. Esperou que Abimeleque acumulasse mais maldade. Esperou que Siquém se aprofundasse na corrupção. Então agiu, executando justiça completa.
A figura da mulher anônima é poderosa. Ela não tem nome no texto. Não tem genealogia. Não tem palavras registradas. Apenas uma pedra, um lance, e a história muda.
Deus usa instrumentos pequenos para resultados grandes.
Eu posso sentir que minha contribuição é insignificante. Que minha pedra é pequena demais. Que meu lance não vai mudar nada. Mas a história de Israel registra eternamente uma mulher sem nome que mudou tudo com um único arremesso. Deus não despreza o pequeno. Ele o usa.
Por fim, aprendo sobre a justiça poética de Deus. Abimeleque matou os irmãos sobre uma pedra. Morreu por causa de uma pedra. Queimou os cidadãos de Siquém. Queimou o templo de Baal que financiou sua ascensão.
Deus tem memória que os homens não têm.
Aquilo que parece esquecido, Deus lembra. As alianças traidoras de hoje geram consequências amanhã. O sangue derramado no escuro fala em voz alta diante do trono de Deus. E ele responde com justiça que combina com o crime.
Juízes 9 não é apenas história antiga sobre tirano e cidade traidora.
É lembrete sério de que Deus governa, mesmo quando os tronos humanos parecem firmes. E me chama a viver com consciência de que cada decisão tem peso eterno.
Perguntas frequentes sobre Juízes 9
Por que Abimeleque é considerado um anti-juiz?
Chisholm (2017) explica que Abimeleque rompe completamente o padrão dos juízes anteriores. Não foi levantado por Deus. Não respondeu a clamor do povo. Não libertou Israel de inimigo estrangeiro. Pelo contrário, oprimiu seu próprio povo. Ele representa a degradação da liderança israelita, alguém que toma poder pela força e pelo sangue, não pela vocação divina.
Quem eram Baal-Berite e El-Berite?
Walton, Matthews e Chavalas (2018) explicam que Baal-Berite significa “senhor da aliança” e El-Berite significa “Deus da aliança”. Ambos eram divindades cananeias adoradas em Siquém. Os estudiosos divergem sobre se eram divindades distintas ou títulos diferentes para o mesmo deus. O título “il brt” foi confirmado em hinos hurritas de Ugarit. A questão permanece debatida, mas a presença de templo na acrópole de Siquém durante o período é arqueologicamente confirmada.
O que significa a parábola das árvores?
Chisholm (2017) interpreta a parábola como crítica a Abimeleque e aos siquemitas. As árvores frutíferas (oliveira, figueira, videira) representam pessoas qualificadas que recusam o poder porque preferem cumprir sua vocação produtiva. O espinheiro representa Abimeleque: inadequado, sedento de poder, incapaz de oferecer proteção real e perigosamente inflamável. A parábola expõe a estupidez de quem confiou nele e antecipa a destruição mútua.
Por que Deus enviou um “espírito maligno”?
Chisholm (2017) explica que a expressão hebraica não significa necessariamente espírito demoníaco. O termo ra’ah pode referir-se a calamidade, dano ou problema sem juízo moral. No contexto, o espírito é instrumento da justiça divina, gerando discórdia entre Abimeleque e os siquemitas para vingar o sangue dos setenta filhos de Jerubaal. É exemplo da soberania providencial de Deus usando meios indiretos para executar julgamento.
Por que Abimeleque espalhou sal sobre Siquém?
Walton, Matthews e Chavalas (2018) discutem várias interpretações. Pode ter sido ritual de consagração da cidade à divindade, símbolo contra rebeldia (já que sal impede a ação do fermento), ou maldição de infertilidade. Paralelos antigos incluem Salmaneser I espalhando sal sobre cidade conquistada e o Tratado Aramaico de Sefire mencionando essa prática em maldições. O significado exato permanece debatido.
Como a maldição de Jotão se cumpriu?
Chisholm (2017) destaca que a maldição se cumpriu em duas partes. Primeiro, fogo de Abimeleque consumiu os cidadãos de Siquém quando ele queimou o templo-fortaleza com mil pessoas dentro. Segundo, fogo dos siquemitas consumiu Abimeleque, embora não literalmente. O texto hebraico oferece um trocadilho entre esh (fogo) e ishshah (mulher). A mulher anônima de Tebez foi o “fogo” que destruiu Abimeleque, cumprindo a maldição de forma poética.
Como aplicar Juízes 9 à vida cristã hoje?
A principal aplicação está em três pontos. Primeiro, reconhecer que decisões pessoais geram consequências geracionais, especialmente quando pais comprometem princípios em busca de poder. Segundo, entender que Deus age providencialmente mesmo em períodos de aparente silêncio, executando justiça em tempos e meios inesperados. Terceiro, perceber que Deus usa instrumentos pequenos e anônimos para grandes propósitos, e que minha pequena fidelidade pode ser exatamente o que Deus quer usar para mudar o curso da história.
Referências
- CHISHOLM JR., Robert B. Juízes. Tradução: Markus Hediger. São Paulo: Cultura Cristã, 2017. Disponível em: https://amzn.to/4utkens
- WALTON, John H.; MATTHEWS, Victor H.; CHAVALAS, Mark W. Comentário Histórico-Cultural da Bíblia: Antigo Testamento. Tradução: Noemi Valéria Altoé da Silva. São Paulo: Vida Nova, 2018. Disponível em: https://amzn.to/3QIwRMV
- Bíblia Sagrada. Nova Versão Internacional. São Paulo: Sociedade Bíblica Internacional, 2001. Disponível em: https://amzn.to/4n5JBZu