O tema do livre-arbítrio é com certeza um dos mais controversos da Bíblia. Por séculos, teólogos, filósofos e pensadores discutem o assunto. No final a grande pergunta a ser respondida é: Livre-arbítrio existe?

Pois bem, neste estudo bíblico sobre o livre-arbítrio, quero analisar com você as origens do tema e suas correntes de ensino.

Sendo assim, se prepare!

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PARTIU!

Livre-Arbítrio Significado

A liberdade do ser humano para tomar decisões. Alguns teólogos e filósofos consideram que para que haja liberdade basta que não haja coação. Assim, por exemplo, mesmo que por natureza um cachorro faminto coma quando sua comida é oferecida, sua decisão de comer é livre, porque ele não é obrigado a isso. Para outros, a verdadeira liberdade existe unicamente quando a vontade é sua própria causa. Segundo essa definição, quem faz algo simplesmente porque é de sua natureza fazê-lo, não age em liberdade verdadeira. A verdadeira liberdade requer opções e a capacidade de decidir entre alternativas. (González, J. (2009). In J. C. Martinez (Org.), S. P. Brito (Trad.), Breve Dicionário de Teologia (1a edição, p. 16). São Paulo, SP: Hagnos.)

Essa é a definição clássica do livre-arbítrio, e de acordo com alguns teólogos, nos foi concedida pelo Senhor Deus no ato da criação: a capacidade de decidir entre o bem e o mal.

No entanto, é importante lembrar que o termo não está na Bíblia. Os primeiros estudos sobre o tema foram feitos por Agostinho, e segundo ele, nosso livre-arbítrio só existe para a escolha do pecado, nunca para a salvação. Noutras palavras, segundo Agostinho qualquer um de nós que veio a crer em Cristo, não creu por escolha própria, mas por escolha soberana de Deus.

Nos tópicos seguintes quero analisar as conclusões das duas escolas e por fim, apresentar a minha própria opinião.

Livre-arbítrio Segundo Santo Agostinho

Agostinho declarou que, em seu estado antes da queda, o homem desfrutava tanto de livre-arbítrio (liberium arbitrium), quanto de liberdade moral (libertas). Desde a queda, o homem continua a ter livre-arbítrio, mas perdeu a liberdade moral que antes possuía. (Sproul, R. C. (2012). Posso Conhecer a Vontade de Deus?. (T. J. Santos Filho, Org., F. Wellington Ferreira, Trad.) (1a Edição, Vol. 4, p. 46). São José dos Campos, SP: Editora FIEL.)

Segundo Agostinho de Hipona, que viveu entre 354 – 430 d.C, a liberdade do homem após a queda está condicionada a sua escolha pelo pecado, jamais para a salvação. De acordo com ele, hoje as nossas possibilidades de livre-arbítrio são muito limitadas.

Sua teoria não acredita que o ser humano consiga passar do estado de perdido (sem Deus) para o estado de conversão sem que haja uma determinação soberana do Criador para que tal pessoa creia.

O motivo que ele apresenta é o seguinte:

Segundo Agostinho, a vontade humana por si mesma não tem a liberdade para dar esse passo, pois o ser humano em sua condição de pecado somente pode escolher entre opções pecaminosas, e a conversão não é uma dessas opções. (González, J. (2009). In J. C. Martinez (Org.), S. P. Brito (Trad.), Breve Dicionário de Teologia (1a edição, p. 17). São Paulo, SP: Hagnos.)

Aqui, entra mais dois assuntos importantes na Teologia: a graça irresistível e a predestinação.

Neste caso, a atuação da graça irresistível na vida do pecador lhe move do pecado, lhe abre o entendimento e opera a conversão. Sendo um ato de pleno favor, essa manifestação da graça não conta ou precisa da decisão humana. Esse modelo teológico foi desenvolvido por Agostinho e hoje, é a base do calvinismo ortodoxo.

Livre-arbítrio Existe?

Se somos livres para escolher o que queremos, mas queremos somente o que é mau, como podemos ainda falar em livre-arbítrio? Foi exatamente por isso que Agostinho distinguiu livre-arbítrio de liberdade, dizendo que o homem caído ainda tem livre-arbítrio, mas perdeu sua liberdade. Foi também por isso que Edwards disse que ainda temos a liberdade natural, mas perdemos a liberdade moral. (Sproul, R. C. (2012). Posso Conhecer a Vontade de Deus? (T. J. Santos Filho, Org., F. Wellington Ferreira, Trad.) (1a Edição, Vol. 4, p. 47–48). São José dos Campos, SP: Editora FIEL.)

Ou seja, segundo o ensino de Agostinho e Jonathan Edwards, há uma diferença entre livre-arbítrio e liberdade. Segundo eles, a grande questão está entre o desejo e escolha.

A definição neste sentido, é a de que “sempre escolhemos de acordo com as inclinações ou desejos mais fortes do momento […]” (Sproul, R. C. (2012). Ou seja, nossas escolhas são fruto de uma espécie de coerção externa.

Observe o seguinte exemplo:

Suponha que, em seu retorno para casa, vindo de uma reunião, você encontre um ladrão que aponta um revólver para sua cabeça e diz: “O dinheiro ou a vida”. O que você faz? Se você ceder às exigências dele e pegar a sua carteira, se tornará uma vítima de coerção e, em alguma medida, terá exercido livre escolha. A coerção se introduz em virtude do fato de que o ladrão está restringindo severamente suas opções a duas. O elemento de liberdade que é preservado procede do fato de que você ainda tem duas opções, e escolhe aquela pela qual você tem o mais forte desejo no momento.

Em igualdade de circunstâncias, você não teria qualquer desejo de dar seu dinheiro a um ladrão indigno. Mas você não tem o menor desejo de ter seu cérebro atingido pela bala de um ladrão. Mesmo em face do pequeno número de opções, você ainda escolhe de acordo com a inclinação mais forte do momento. Sempre fazemos o que realmente queremos fazer. (Sproul, R. C. (2012). Posso Conhecer a Vontade de Deus?. (T. J. Santos Filho, Org., F. Wellington Ferreira, Trad.) (1a Edição, Vol. 4, p. 50–51). São José dos Campos, SP: Editora FIEL.)

Complicado?

Não, não é!

Pense da seguinte forma, nossas escolhas revelam nossos desejos mais ardentes. O desejo pela vida é mais ardente que o desejo pelo dinheiro, por isso que sob a coerção de uma arma entregamos o dinheiro.

Quando pecamos contra Deus, significa que o nosso desejo de pecar é maior que o desejo de agradar a Deus. Contudo, não significa que não desejamos agradar a Deus.

Ao observar os nossos desejos, Edwards os comparou às ondas do mar. Inconstantes e incontroláveis. Depois de reuniões de oração sinceras, normalmente queremos agradar a Deus, contudo quando expostos aos prazeres da carne somos atraídos por suas satisfações.

Essa inconsistência, segundo a doutrina de Agostinho e Edwards leva a seguinte conclusão:

[…] somos criaturas de disposições inconstantes e desejos transitórios, que ainda não atingiram uma constância de vontade baseada em uma consistência de desejos santos. Enquanto existe conflito de desejos e permanece um apetite pelo pecado no coração, o homem não é totalmente livre no sentido moral do qual falou Jonathan Edwards. Também não experimenta a plenitude de liberdade descrita por Agostinho. (Sproul, R. C. (2012). Posso Conhecer a Vontade de Deus?. (T. J. Santos Filho, Org., F. Wellington Ferreira, Trad.) (1a Edição, Vol. 4, p. 53). São José dos Campos, SP: Editora FIEL.)

Ou seja, não somos livres para escolher o que queremos, escolhemos com base em duas opções dadas e sempre escolhemos de acordo com o desejo mais ardente, o que na visão de Agostinho se configura em coerção e não liberdade ou livre-arbítrio.

Livre-arbítrio Segundo o Arminianismo

Se Agostinho estava certo ao dizer que Adão, antes da queda, possuía uma capacidade de pecar e uma capacidade de não pecar, e que ele foi criado sem qualquer disposição ou inclinação anterior para com o pecado, então, a pergunta que temos diante de nós é esta: como foi possível tal criatura, sem qualquer disposição anterior para com o mal, dar um passo em direção ao mal?(Sproul, R. C. (2012). Posso Conhecer a Vontade de Deus?. (T. J. Santos Filho, Org., F. Wellington Ferreira, Trad.) (1a Edição, Vol. 4, p. 61–62). São José dos Campos, SP: Editora FIEL.)

Pois bem, se após a queda somos “coagidos” a pecar, o que houve com Adão e Eva que não estavam sobre a influência da tentação? Que não conheciam o pecado?

Aqui há um ponto que é praticamente inexplicável.

A possibilidade de escolha de Adão e Eva pelo erro, era praticamente impossível, mas aconteceu. De alguma forma, o tempo no Éden e as opções apresentadas pelo Senhor Deus foram insuficientes para o primeiro casal.

O que a teoria propõe é que, em algum momento antes da queda o Diabo percebeu a insatisfação neles, e daí lhes apresentou a proposta:

Disse a serpente à mulher: “Certamente não morrerão!

Deus sabe que, no dia em que dele comerem, seus olhos se abrirão, e vocês serão como Deus, conhecedores do bem e do mal”. Quando a mulher viu que a árvore parecia agradável ao paladar, era atraente aos olhos e, além disso, desejável para dela se obter discernimento, tomou do seu fruto, comeu-o e o deu a seu marido, que comeu também. (Gênesis 3:4-6)

Ao ouvir a proposta da serpente, Eva achou agradável. Ou seja, ela não repugnou, rejeitou ou achou absurdo. Ela consentiu!

Sendo assim:

Em algum ponto, antes de acontecer o ato de transgressão, Adão deve ter desejado a desobediência a Deus mais do que a obediência a ele. Nisto, a queda já havia acontecido, porque o próprio desejo de agir contra Deus, em desobediência, é pecaminoso em si mesmo. (Sproul, R. C. (2012). Posso Conhecer a Vontade de Deus?. (T. J. Santos Filho, Org., F. Wellington Ferreira, Trad.) (1a Edição, Vol. 4, p. 67). São José dos Campos, SP: Editora FIEL.)

Lançando um olhar sobre a Bíblia, segundo essa doutrina a questão da escolha do pecado do primeiro casal, é uma questão moral. Deus fez o homem para não pecar, e ele escolheu o contrário em um perfeito exercício do seu livre-arbítrio.

O Livre-arbítrio e a Santificação

Portanto, irmãos, rogo-lhes pelas misericórdias de Deus que se ofereçam em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus; este é o culto racional de vocês. Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.  (Romanos 12:1,2)

O processo de conversão operado em nós pelo Espírito Santo, é o responsável por operar em nós a santificação mediante o nosso reconhecimento pecado e necessidade de perdão.

Arrependimento sincero e mudança de atitude, são os requisitos necessários para a operação dessa transformação.

É importante lembrar que o desejo não é um poder fixo e constante que pulsa em nossa alma. Nossos desejos mudam e variam de momento a momento. Quando a Bíblia nos chama a alimentar o novo homem e matar de fome o velho homem, podemos aplicar esta exortação por nos beneficiarmos do fluxo e refluxo de disposições para fortalecer o novo homem, quando nosso desejo por Cristo é inflamado, e mortificar os desejos do velho homem por matá-lo de fome, em tempos de fartura. A maneira mais simples de afirmar o mecanismo do pecado é entender que, no momento em que eu peco, desejo mais o pecado do que desejo agradar a Deus. (Sproul, R. C. (2012). Posso Conhecer a Vontade de Deus?. (T. J. Santos Filho, Org., F. Wellington Ferreira, Trad.) (1a Edição, Vol. 4, p. 57). São José dos Campos, SP: Editora FIEL.)

Esse é o convite de Paulo: “Alimente a sua nova criatura e deixe morrer de fome, a velha”. Quando o desejo de pecar vier, o meu desejo de agradar a Deus deve superá-lo. À medida que o tempo passa, a nossa nova natureza ficará cada vez mais forte e os embates serão mais favoráveis para a obediência a Deus.

Isso é fruto da manifestação da graça. Sim ela atua sobre a nossa vida mesmo antes da conversão, é ela sim que nos atrai a Cristo, mas não por imposição ou escolha pré-determinada como se os que creem fossem especiais ou como se a salvação estivesse limitada a um grupo de pessoas.

Mesmo depois da queda*, Deus dá a todos os humanos uma graça ou ajuda geral e isso basta para que a pessoa possa dar o primeiro passo em direção à fé. A isso segue o “hábito* da fé”, que é o dom sobrenatural de Deus àqueles que desejam crer; a isso, então, Deus acrescenta outros dons do Espírito. (González, J. (2009). In J. C. Martinez (Org.), S. P. Brito (Trad.), Breve Dicionário de Teologia (1a edição, p. 216). São Paulo, SP: Hagnos.)

Conclusão

O tema do livre-arbítrio é complexo e de difícil entendimento, de fato, mas não deve ser motivo de perturbação ou confusão à fé. A exposição desse assunto nos mostra que apenas o nosso Deus é Soberano e conhece todas as coisas.

É certo, que alguns temas bíblicos mostram a nossa finitude e dependência de Deus. Enquanto seres humanos, conhecemos em parte, apenas na revelação futura de Cristo é que conheceremos plenamente.

De qualquer forma, a minha opinião é que Adão e Eva foram criados com o livre-arbítrio perfeito, isto é: o poder de escolher entre o bem e o mal, por mais que não o conhecessem.

Obviamente que as coisas eram bem mais fáceis para eles, por isso, ao contrário de nós que temos a semente do pecado desde o nascimento e precisamos a aprender a obediência.

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