Tudo Posso Naquele Que Me Fortalece: O Que Significa?

Uma das expressões mais famosas do cristianismo em todo o mundo é, com certeza: “Tudo posso naquele que me fortalece”. Ela é o carro chefe de adesivos de carros, quadros cristãos, fitas, adesivos, temas de livros, enfim, parece estar por todo lugar.

Contudo, muitos de nós não entende bem o que a expressão quer dizer. Isto é, a maioria dos cristãos não sabe o que Paulo queria dizer com estas palavras.

Neste estudo bíblico, quero viajar com você há dois mil anos atrás para dentro da prisão romana, para tentar entender o que se passava na mente do apóstolo dos gentios quando registrou essa clássica expressão cristã.

O Começo

Dar a alguém um elogio por algo que fizeram por você é muito mais complicado do que você imagina. Aqui está o que eu quero dizer. Eu gosto de comida e gosto muito. Eu sou muito proativo em elogiar alguém por me dar algo ótimo para comer, especialmente se é algo que eles prepararam em casa.

Eu faço isso em primeiro lugar para ser um convidado gentil e grato, mas às vezes tenho motivos ocultos. Baseado no fato de que as pessoas gostam de ser elogiadas, há duas respostas típicas que tenho observado.

O primeiro é elogiar mais do que eu na verdade gostei. Se eu dissesse que o cupcake de sobremesa era a melhor e mais rica coisa que eu já provei, as chances são altas de poder me oferecer um pouco mais. Eu estaria mentindo se dissesse que esse pensamento não passara pela minha cabeça quando emoldurei um elogio.

E ainda há outro motivo. Se eu tenho sido um hóspede grato que fez o anfitrião sentir-se bem com a hospitalidade deles, há uma maior probabilidade de ser convidado novamente.

Para melhor ou pior, essa parece ser a natureza de elogios e agradecimentos: quanto mais você oferece, maior a probabilidade de que qualquer comportamento gerado seja repetido. Este princípio explica tudo, desde a motivação baseada em recompensa até as respostas do cão de Pavlov aos estímulos.

Esclarecendo a Expressão: “Tudo Posso Naquele Que Me Fortalece”

Em Filipenses 4:10, Paulo está abrindo caminho através das complexidades dos agradecimentos. Ele quer genuinamente agradecer aos filipenses por seu generoso presente a ele, mas sem parecer que ele está buscando mais do mesmo.

Se ele elogiar demais o presente, parecerá que ele quer mais. Se ele diminuir demais, pode parecer ingrato ou como se o presente fosse insuficiente para satisfazer suas necessidades. Então ele faz as duas coisas.

Ele começa em 4:10 minimizando a distância. À primeira vista, pode parecer que Paulo está dizendo algo como “você está finalmente se lembrando de mim”. Ele não está falando mal; ele está escrevendo retoricamente.

Essencialmente, ele repara a primeira declaração de 4:10, dizendo que eles estavam realmente pensando sobre ele, mas eles simplesmente não tinham a oportunidade de expressá-lo.

A oportunidade surgiu quando os filipenses enviaram um presente a Epafrodito. Lembre-se da discussão de 2: 25–30 que havia dúvidas sobre se a missão de Epafrodito a Paulo foi um sucesso ou um fracasso, com base em sua doença grave. Paulo já elogiou a conduta de Epafrodito, mas ainda não tinha agradecido o presente.

Uma Necessidade Real

Não estou dizendo isso porque esteja necessitado, pois aprendi a adaptar-me a toda e qualquer circunstância. (Filipenses 4:11)

Para entender Filipenses 4:11, precisamos reconhecer a distinção de Paulo entre o que é desejado versus o que é necessário. Ele começa com o lado desejado das coisas.

A palavra traduzida pela maioria das traduções aqui como “necessidade”, contrasta com outra palavra grega em 4:16 que também é tipicamente traduzida como necessidade.

Então, o que está acontecendo?

A diferença significativa entre os dois é semelhante – não equivalente – à diferença entre as palavras portuguesas falta / escassez e necessidade. Os termos anteriores referem-se a algo que geralmente é quantificável: não há o suficiente de alguma coisa.

Você pode estar com pouca coisa, sem necessariamente ter acabado, seja farinha, madeira, dinheiro ou leite.

O último termo refere-se a algo que geralmente é um requisito, ou necessidade, e está faltando. Se eu precisasse de uma chave de fenda para montar algo, mas não tivesse uma, o projeto iria parar até que a necessidade fosse satisfeita.

Desejado ou necessário?

Há dois termos no Novo Testamento que são ambos frequentemente traduzidos como necessidade, mas há uma importante distinção entre eles que Paulo usa nesta passagem.

Por que essa distinção é importante aqui? Quando Paulo fala sobre aprender a se contentar em 4:10, ele está falando de falta ou escassez. Quando ele fala sobre Deus atendendo às necessidades, ele está se referindo aquilo que não é quantificável, aquilo que é necessário ter para realizar uma determinada tarefa. O termo falta/escassez pode ser pensado como algo que é desejado, não requerido.

Como Paulo fala sobre aprender a se contentar com todos os tipos de circunstâncias, ele usa o termo falta/escassez para descrever a situação (primeiro em 4:11 e novamente em 4:12) para contrastar ter abundância e ter falta.

Marcos usa o mesmo par de termos em 12:44 para descrever a oferta da viúva pobre de duas pequenas moedas de cobre em comparação àquelas dadas pelos ricos. Eles deram de sua abundância, enquanto ela deu fora de sua falta.

O termo não significa que ela foi totalmente desprovida; ela tinha as duas moedas, afinal. Simplesmente a caracteriza como tendo falta ou escassez. Em outras palavras, ela realmente não tinha dinheiro para gastar, enquanto os ricos tinham tanto que o presente deles não teria afetado sua abundância.

A Satisfação

Em Filipenses 4:10–14, Paulo está preocupado com a relação entre o que temos/experimentamos e o quanto somos contentes – com ênfase em Filipenses 4:11. Ele não está falando aqui sobre algum elemento necessário, mas um desejado.

Tendo experimentado tanto pouco quanto muito, tanto a fome como o preenchimento, tanto falta como abundância, Paulo aprendeu uma lição importante: Estar contente não depende de ter tudo o que você quer, mas de ser grato e satisfeito com o que você tem.

O problema é que quanto mais temos, mais tendemos a querer. Se o nosso contentamento depende de nossos desejos serem atendidos, então estamos destinados a ficar insatisfeitos.

O Deus Provedor

Paulo deixa claro em Filipenses 4:18 que ele não está escrevendo de uma posição de necessidade, pelo menos não mais. O presente dos filipenses garantiu que ele tenha provisão em abundância. Em ambos os casos, ele aprendeu a não basear sua satisfação em suas circunstâncias.

Paulo os leva de volta ao início de seu ministério depois de partir da Macedônia, usando isso como estrutura para descrever o significado da oferta. Ele então faz uma declaração que é falsa – pelo menos até você ler as duas partes.

Ele afirma que nenhuma igreja compartilhou com ele em matéria de dar e receber, apesar do fato de que os filipenses de fato compartilhavam. Por que dobrar a verdade assim?

Para chamar a atenção extra para a única exceção à sua declaração negativa. Havia uma igreja: eram os filipenses.

Quem compartilhou?

A fim de chamar a atenção para o fato de que os filipenses eram a única igreja que compartilhava seu ministério, Paulo usa um truque antigo. Ele começa fazendo uma afirmação falsa de que ninguém compartilhou com ele, mesmo que essa não seja a verdade completa.

Ao adiar o resto da história, ele habilmente os lança como a única exceção notável. Paulo poderia simplesmente afirmar que eles foram os únicos que ajudaram, mas isso teria um impacto retórico muito menor.

Esta estrutura – onde a afirmação negada não é realmente verdadeira até que você leia a exceção no final – é usada frequentemente no Novo Testamento (veja Marcos 6:5 onde diz que Jesus foi incapaz de curar pessoas em Nazaré).

Enquadrar a declaração desta maneira chama a atenção extra para o elemento de exceção. Nesse contexto, isso indica que a oferta dos filipenses fez toda a diferença em seu ministério.

Aconteceu Antes

Em Filipenses 4:16, Paulo lembra que essa partilha aconteceu em mais de uma ocasião!

Há também uma mudança para o outro termo para “necessidade”, o tipo “emergência”. Esta é a necessidade que a oferta dos Filipenses supriu, não apenas um conforto aumentado ou abundância.

O versículo 17 mostra que Paulo não está buscando outro dom por elogiá-los, mas querendo que eles entendam a diferença que fez para o Reino de Deus – algo pelo qual o Senhor os recompensará.

Da Escassez Para a Abundância

Depois de dispensar qualquer confusão sobre se ele estava agradecendo e estendendo a mão para mais, Paulo retorna à sua linha principal de pensamento em Filipenses 4:18.

Ele deixa claro nesta retomada que ele não só recebeu a oferta em sua totalidade, mas que resultou em abundância para ele. Epafrodito provou seu valor, ao entregar com sucesso o que lhe foi confiado a levar para Paulo.

E mesmo que Paulo saiba como estar contente, ter abundância é uma mudança bem-vinda em relação ao que ele geralmente experimentava, a escassez (ver II Coríntios 11: 9).

A sentença final de Filipenses 4:18 descreve o efeito resultante de receber a oferta entregue por Epafrodito: “Estou amplamente suprido”, disse Paulo. O termo usado aqui é diferente daquele usado em Filipenses 4:12 para o contraste com a fome.

Refere-se não apenas a ser preenchido, mas a ser completo. A ideia é que a oferta deles não apenas satisfez suas necessidades, mas lhe deu todas as coisas necessárias para seguir adiante com seu ministério.

A referência ao que a Igreja enviou estabelece o cenário para que Paulo dê ênfase a gratidão pela oferta, usando uma expressão eloquente: “oferta de aroma suave, um sacrifício aceitável e agradável a Deus”.

Imagine a bênção que teria sido ouvir tal descrição, especialmente porque o presente deles foi sacrificialmente dado de sua própria escassez (veja 2 Co 8: 1-5).

A Promessa de Deus

Como Paulo começou basicamente minimizando o significado da oferta recebida, ele é capaz de acumular elogios ricos sem que eles pensem que ele estava pedindo mais.

Paulo faz referência no final de 4:18 a ser completo ou pleno. O mesmo termo é usado em 4:19 para descrever a promessa de que Deus preencherá ou cumprirá todas as suas necessidades de acordo com Suas riquezas em Cristo Jesus.

Necessidade aqui refere-se aos elementos necessários ou essenciais, não à escassez ou falta. O cumprimento pode resultar em uma abundância esmagadora, uma vez que é baseado nas riquezas de Deus em Cristo, mas o foco aqui não é em riquezas, conforto ou fazer alguém rico.

Em vez disso, as ideias são de que, à medida que sacrificialmente doamos para atender às necessidades requeridas do ministério, o próprio Deus verá que nossas próprias necessidades precisam ser atendidas.

Não há indício de que um evangelho da prosperidade esteja sendo ensinado aqui. Isso deriva de um mal-entendido fundamental da distinção de Paulo entre o que é desejado e o que é necessário. O que é necessário está em foco aqui.

Conclusão

Paulo encerra esta seção com uma doxologia que se concentra em Deus como nosso Pai – o provedor de todas as coisas de que precisamos. A doação e a mordomia fiel de dons não se trata de ganhar Seu favor ou aprovação.

Em vez disso, a obediência sacrificial – tanto pelo doador quanto do receptor – resulta em Deus recebendo a glória que Ele tão ricamente merece. Ele não é merecedor apenas de nossa adoração, mas também de nossa humilde obediência.

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